Entrevista com o autor Eduardo de Menezes Macedo

Postado por Lutas Anticapital Editora em

Entrevista realizada com o autor do livro Cordel e formação humana – um estudo à luz da onto-metodologia, Eduardo de Menezes Macedo, poeta e pesquisador, mestre em educação pela Universidade Estadual do Ceará e pós graduando em história da arte pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Lutas Anticapital: Eduardo, qual a atualidade em se pesquisar o cordel brasileiro?
Eduardo de Menezes Macedo: O cordel brasileiro é uma expressão literária autenticamente popular e brasileira. Nasceu a partir do esforço estético de indivíduos da classe trabalhadora nordestina, influenciado pela poética da tradição oral dos repentistas e, mesmo já contando com, no mínimo, cento e trinta anos de existência, continua sendo escrito, publicado e lido nos quatro cantos do país. Nesse sentido, conforme é a práxis científica, necessita ser revisto continuamente, dada a dinâmica própria da sua essência, a qual tem mostrado a capacidade única que ele tem de reinventar-se, adaptar-se e se expandir. O cordel é lido tanto por crianças quanto por adultos, seja gente do campo ou das grandes cidades. Inclusive, muito embora fosse comercializado, em seus primórdios, nas tradicionais feiras-livres e estações de trem, hoje está presente em salas de aula e nas prateleiras das grandes livrarias, tendo, até mesmo, exemplares vencedores dos maiores prêmios literários do país.

Lutas Anticapital: Sabemos que o livro é resultado da sua dissertação de mestrado. O que te levou a escolher o cordel como objeto de pesquisa?
Eduardo de Menezes Macedo: Sou mestre pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará. Inicialmente, minha pesquisa seria uma crítica aos Parâmetros Curriculares Nacionais da área de artes, à luz do marxismo, mas quando ingressei no programa, mudei o objeto. Isso se deu devido à minha proximidade com o cordel brasileiro, já que tenho escrito e publicado no gênero desde o ano de 2009, quando lancei meu primeiro folheto. De lá pra cá publiquei algumas dezenas de obras, entre folhetos e livros, alguns de modo independente e outros como resultado de concursos literários e editais voltados à formação de leitores. Sabendo disto, minha orientadora, a professora Ruth Maria de Paula Vasconcelos, convenceu-me a desenvolver um trabalho que investigasse o cordel, tendo como base o materialismo histórico-dialético, uma vez que, dada sua relevância à produção artística brasileira e sua crescente presença em sala de aula, o trabalho seria de grande importância à formação de professores.

Lutas Anticapital: E qual foi o seu ponto de partida?
Eduardo de Menezes Macedo: Hoje em dia, fala-se muito em decolonialismo e pesquisa-se muito a partir duma perspectiva não eurocêntrica dita decolonial. Entretanto, pouco se produz no sentido de identificar o cordel brasileiro como uma expressão artística nascida em nossas terras, parida pela mente e pela pena da nossa gente. Da mesma forma, muitos são os que defendem nosso cordel como sendo o continuador duma tradição ibérica portuguesa, filiando-o, indiscriminadamente, ao medievo europeu, quando não à antiguidade da poesia grega. Como isso sempre me incomodou, vi no mestrado a possibilidade de estudar nossa poética como um gênero literário autenticamente brasileiro, distanciando-me do viés ordinário folclorista, visando dar os louros aos autores e autoras da classe trabalhadora que nos legaram essa literatura, que é anticolonial em sua essência. Assim, dada a ausência de pesquisas de base marxista sobre o nascimento do gênero, senti-me motivado a enfrentar o desafio.

Lutas Anticapital: Como você poderia resumir, estruturalmente, o conteúdo do livro para o público amplo?
Eduardo de Menezes Macedo: Partimos de dois estudos basilares que defendem a tese da gênese nativa do cordel: “Memória de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste, 1893-1930”, de 1983, resultado da dissertação de mestrado da pesquisadora da Universidade de São Paulo, Ruth Brito Lêmos Terra, e “Cordel português / folhetos nordestinos: confrontos”, tese de doutorado da professora Márcia Azevedo de Abreu, da Universidade Estadual de Campinas, de 1993. Iniciamos o trabalho caracterizando aquilo que define literariamente o cordel: o formato poético fixado pelos autores fundadores, utilizado na elaboração de narrativas ficcionais ou jornalísticas, classificadas por grupos divididos entre romances, pelejas e poemas de época. O majoritário das sextilhas, das setilhas e das décimas (estrofes de seis, sete e dez versos) é um dos maiores distintivos do gênero. Estabelecidos os critérios que diferenciam os poemas cordelísticos de outras manifestações poéticas – tanto da tradição escrita quanto da tradição oral – tratamos de trazer a lume as diferenças sociais existentes entre aqueles autores da tradição editorial ibérica e os nossos poetas, bem como o fato de que além-mar não ocorrera o fenômeno de um movimento massivo de produção de obras literárias inéditas, voltado à publicação sistematizada no formato dos folhetos. Em Portugal, os títulos oferecidos pelos folheteiros ambulantes apresentavam variedade temática e formal, de modo que se misturavam, por exemplo, a novelas de cavalaria e contos em prosa, livros de simpatias, orações religiosas, dramaturgia e biografias. Assim, objetivando estudar com rigor científico o cordel brasileiro, optamos por utilizar as lentes da óptica marxista, fugindo duma postura mistificadora e romântica que aliena dos poetas brasileiros o título de criadores da sua própria literatura. Quanto ao embasamento marxista, destacamos sinteticamente algumas das categorias desenvolvidas pelo filósofo húngaro Georg Lukács em seus estudos da arte e do trabalho: trouxemos à discussão, em breves termos, a teoria do ser social a partir do salto ontológico e percorremos os caminhos que levam aos chamados “complexos sociais” da arte, da ciência e da religião, evidenciando a mediação promovida pela categoria do cotidiano para, ao final, alcançar a teoria do reflexo estético. Relativamente a isto, terminamos por encontrar uma interseção do pensamento lukacsiano com o pesquisador Luís da Câmara Cascudo, quando este afirma que o gênero do cordel brasileiro tem como principal característica portar o poderoso reflexo da mente e do cotidiano dos seus autores e receptores, visto que estão, ambos, ligados organicamente. Em capítulo específico, motivados pela contextualização socioeconômica delineada por Ruth Terra na pesquisa citada há pouco, expusemos o panorama característico das relações produtivas da região Nordeste, desde a instituição colonial até o período de surgimento do cordel, partindo de estudos socioeconômicos elaborados por Caio Prado Júnior e Celso Furtado, delineando as devidas correspondências e fazendo a crítica junto às categorias desenvolvidas pelo fundador do materialismo histórico-dialético, Karl Marx, a saber, trabalho assalariado e alienação, ambas colhidas na obra “Manuscritos econômico-filosóficos de 1844”. Na sequência, examinamos um pequeno corpus de poemas do período estudado (fins do séc. XIX aos anos de 1930), destacando os elementos da realidade constitutiva do cotidiano dos poetas fundadores do gênero, os quais, provindo da classe trabalhadora, enfrentaram um período de radicais mudanças na base da sua sociedade. Destacam-se, entre eles, poemas de Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista, José Pacheco da Rocha, Firmino Teixeira do Amaral, Antônio Batista e José Camelo de Melo Resende, com temas vários que passam pelo fenômeno do cangaço, por críticas sociais e pelo problema do racismo. Finalmente, tratamos de investigar a função social do cordel brasileiro, no sentido de apontar em que medida este cumpre o papel de desenvolvedor da autoconsciência em seu público receptor, já que, conforme Lukács, a fruição estética que leva o indivíduo a passar pela experiência catártica pode também levá-lo a desenvolver a autoconsciência nos termos estabelecidos por Marx.

O livro está disponível no site da Editora Lutas Anticapital