Entrevista com o Prof. Dr. Eduardo Sá Barreto, autor do livro "Pequeno Guia para a Crítica Ecossocialista do Capitalismo"

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Entrevista com o Prof. Dr. Eduardo Sá Barreto, autor do livro 
"Pequeno Guia para a Crítica Ecossocialista do Capitalismo"

Lutas Anticapital: professor Eduardo, para começarmos, qual foi sua motivação para escrever este guia? Você já tinha explorado a Ecologia Marxista em trabalhos anteriores, então o que o levou a condensar essas reflexões em um formato mais acessível?

Eduardo Sá Barreto: A motivação para escrever este guia surgiu de um desafio que tenho enfrentado desde que comecei a trabalhar com Ecologia Marxista. Por um lado, as questões ambientais e o aquecimento global se tornaram urgências que exigem respostas rápidas e acessíveis. Por outro lado, o tipo de reflexão que a crítica ecossocialista oferece é, em essência, denso e teórico — o que, a princípio, dificulta o diálogo com o público mais amplo.

Meu primeiro livro, O Capital na Estufa (2018), era voltado para um público acadêmico e especializado, com uma abordagem mais teoricamente densa. Em seguida, Ecologia Marxista para Pessoas Sem Tempo (2022) foi uma tentativa de tornar a reflexão mais acessível sem perder a consistência teórica. Este Pequeno Guia é, de certa forma, uma passo adicional nesse esforço. Ele é estruturado para funcionar como uma introdução ao pensamento ecossocialista, mas sem abrir mão de uma base teórica sólida. É um texto que busca ser didático sem ser superficial, provocativo sem ser sectário.

Outro ponto importante é que o guia não se restringe a uma exposição teórica. Sua principal contribuição é procurar extrair dessa exposição consequências práticas. O colapso ecológico em curso está diretamente ligado à lógica destrutiva do capitalismo, e um ecossocialismo consequente é, a meu ver, a mais clara via  que pode combinar uma análise materialista consistente com um programa de ação viável. A ideia foi criar um material que pudesse circular em movimentos sociais, coletivos e espaços de formação política, servindo como uma ponte entre o diagnóstico teórico e a prática militante.


LA: No livro, você argumenta que o ecossocialismo não é apenas uma tradição de pensamento, mas também um programa de transição. Pode explicar melhor essa diferença e como elas se articulam?

ESB: Sim, essa é uma questão central para entender o projeto ecossocialista. Como tradição de pensamento, o ecossocialismo tem raízes profundas na crítica marxista da economia política. John Bellamy Foster foi um dos primeiros a demonstrar, em A Ecologia de Marx (2000), como o pensamento de Marx oferece ferramentas teóricas para compreender a destruição ambiental como um processo inerente à dinâmica do capital. Michael Löwy e Joel Kovel, com o Manifesto Ecossocialista Internacional (2001), sistematizaram essa linha de reflexão, destacando o vínculo entre exploração capitalista e destruição ecológica. Antes deles, muitos outros deram os primeiros passos na articulação entre a práxis marxista e a crítica ecológica.

O que distingue o ecossocialismo é a compreensão de que a destruição ecológica não é um acidente ou o efeito colateral de um funcionamento anormal do capitalismo. Ela é parte integrante indissociável do funcionamento do sistema. O capital só pode se reproduzir por meio de uma dinâmica de crescimento constante, o que implica a extração insaciável de recursos naturais e a produção desmedida de resíduos e desperdício. Essa lógica é evidentemente insustentável, tanto do ponto de vista ambiental quanto social.

Como programa de transição, o ecossocialismo propõe um conjunto de lutas e iniciativas para romper com essa lógica. Mas aqui há um ponto crítico: as transições que realmente importam — como a transição energética, a reforma agrária e o planejamento ecológico da economia — não podem ser realizadas dentro dos marcos do capitalismo. As propostas de "capitalismo verde", como o mercado de carbono ou a mera recomposição percentual da matriz energética, são ilusões. Elas apenas redistribuem os impactos ambientais, sem sequer tocar nos vetores estruturais da destruição.

Portanto, o programa de transição ecossocialista, quando municiado dessa compreensão, tem um duplo objetivo: por um lado, demonstrar na prática os limites (intoleráveis) desta sociedade; por outro, servir para que a crescente consciência desses limites funcione como uma catalisador para a radicalização da classe trabalhadora em luta.


LA: Em várias passagens do livro, você alerta para o perigo do fatalismo e do imobilismo diante da crise climática. Como o ecossocialismo pode oferecer um caminho para superar esse impasse?

ESB: O fatalismo é uma das armadilhas políticas mais perigosas do nosso tempo. Diante do colapso ecológico e da escalada de crises sociais e políticas, é fácil passar a acreditar que nada pode ser feito — que o máximo que podemos fazer é nos entregar ao desastre iminente. Essa posição é compreensível, mas é politicamente paralisante.

O ecossocialismo oferece uma alternativa porque propõe um horizonte de transformação radical, mas sem cair na ingenuidade voluntarista. Sabemos que o capitalismo é resiliente e que o poder das corporações e dos Estados capitalistas é imenso. Mas também sabemos que o sistema está em crise e que essa crise abre brechas para a ação política.

As lutas imediatas/cotidianas — como a resistência contra projetos de mineração, desmatamento e privatização da água, ou mesmo lutas sem uma conexão direta com questões ambientais — são importantes porque criam espaços de organização e podem funcionar como a antessala da radicalização, se bem aproveitadas. Por isso é preciso trazer para dentro dessas lutas um horizonte estratégico de ruptura com o capitalismo. Mesmo que essas lutas, via de regra, estejam limitadas aos parâmetros da ordem, orientadas por finalidades e ambições que não apontam para além do capitalismo, é possível e necessário que busquemos sempre fazer política revolucionária por dentro delas.

Superar o fatalismo significa reconhecer que o colapso ecológico não implica um destino inevitável, mas diversos futuros possíveis. Entre esses, é preciso sempre lutar pelo futuro que almejamos, lutar contra os futuros que rejeitamos e nos preparamos para aqueles futuros que, além de possíveis, são os mais prováveis. Simplesmente não há razão para paralisia e, arrisco dizer, jamais haverá.

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Sobre o autor: Eduardo Sá Barreto é professor associado no Departamento de Economia
e no Programa de Pós-graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense (Niterói, RJ). Também é pesquisador no Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o Marxismo (NIEP-Marx/UFF) e um dos editores da Revista Marx e o Marxismo. Possui doutorado (2013) e mestrado (2009) em Economia pela Universidade Federal Fluminense e graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (2005). Atua principalmente nos seguintes temas: colapso ecológico, crítica da economia política, história do pensamento econômico e filosofia da ciência.