Segunda Edição (2026): A Arte da conquista: o capital internacional no desenvolvimento capitalista brasileiro (1951-1992)

Postado por Lutas Anticapital Editora em

Entrevista com Prof. Dr. Fábio Antonio de Campos, do Instituto de Economia da Unicamp, autor de "A Arte da conquista: o capital internacional no desenvolvimento capitalista brasileiro (1951-1992)"

LA: O seu livro “Arte da conquista” irá para a segunda edição, o que mostra um interesse pelo tema da dependência externa brasileira e a questão do imperialismo. Nesse sentido, como você pode avaliar a atualidade da pesquisa que deu origem a este livro?
FAC: De fato, esta pesquisa sobre a internacionalização produtiva brasileira, iniciada ainda no mestrado (2003), já tem algumas décadas e continua, infelizmente, muito atual diante da problemática da dependência externa. A desnacionalização da economia brasileira e o avanço do capital internacional na determinação dos rumos da economia nacional nunca cessaram; e, desde a defesa de meu doutorado em 2009 — quando se originou este trabalho —, o sentido da subordinação brasileira ao imperialismo tem se mantido. O papel do capital internacional na economia brasileira intensificou-se de forma marcante nas últimas décadas, revelando um aprofundamento dessa dependência. O estoque de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), que representava 20% do PIB em 2005, alcançou 42,5% em 2021 e já se aproxima de 50%. A origem principal desses capitais está nos países da OCDE e na China, enquanto seus destinos concentram-se em serviços financeiros, comércio e setores ligados ao agronegócio e à mineração. Dentro da indústria, os ramos mais internacionalizados são os setores automobilístico, aeroespacial, de alimentos e bebidas, eletroeletrônico, farmacêutico, digital, petroquímico e de telecomunicações, evidenciando como áreas estratégicas da produção nacional estão fortemente vinculadas ao capital internacional. Esse processo não é novo, e é possível de observá-lo pelas remessas de rentabilidade do imperialismo: entre os anos 1970 e 1980, a renda líquida enviada ao exterior cresceu de 1,4% para 4,1% do PIB, segundo dados do IBGE. Hoje, trata-se da mesma tendência identificada em minha periodização (1951–1992). A diferença reside na qualidade do IDE, muito mais financeirizado — processo que também caracteriza o próprio capital brasileiro no exterior. Em suma, o peso crescente do capital internacional no PIB, sua concentração em setores mercantis-financeiros e a elevada remessa de lucros ao exterior reforçam a condição de vulnerabilidade estrutural da economia brasileira. 

LA: A diferença de sua periodização com o capital internacional na atualidade também reflete, além da financeirização, a da desindustrialização e a da reprimarização na economia brasileira, não é?
FCA: Sim. No período entre 1930 e 1980, em que se insere boa parte da minha pesquisa sobre o capital internacional no Brasil, o crescimento médio do PIB girava em torno de 6% ao ano e, especialmente entre 1947 e 1980, alcançou 7,4% ao ano, segundo dados do IBGE. Esse dinamismo refletia-se também na produtividade do trabalho, que avançava 4,1% ao ano entre 1950 e 1980. Nesse contexto, a participação do Brasil no PIB mundial atingiu 4% em 1980, e a indústria de transformação tinha peso significativo tanto na produção quanto no emprego. A partir da década de 1980, porém, o cenário mudou. O crescimento médio caiu para 2,5% ao ano no período 1980–2022 e se reduziu ainda mais após a crise de 2007, alcançando apenas 0,9% ao ano entre 2010 e 2022. Essa desaceleração traduziu-se em perda de relevância internacional: a participação do Brasil no PIB mundial recuou para 2,3%, enquanto a indústria brasileira, que representava 2,8% da produção mundial em 1980, caiu para 1,2%. O impacto social foi profundo. Entre 2015 e 2020, 36,6 mil fábricas fecharam — uma média de 17 por dia — e, entre 2013 e 2020, foram destruídos 1,4 milhão de postos de trabalho industriais. A participação da indústria de transformação no emprego formal, que era de 20,7% em 1995, caiu para 14,1% em 2021. Assim, hoje estamos mais internacionalizados, mas com a indústria em regressão, o que tende a favorecer a reprimarização produtiva e nos coloca novamente na condição de uma economia reflexa — muito semelhante, em vários aspectos, ao padrão colonial. 

LA: em seu livro, esta conquista imperialista não foi resultado apenas do momento recente, neoliberal, mas de um longo processo na formação econômica do Brasil marcado pela dependência externa, não? 
FAC: O início da pesquisa que deu origem à tese, e posteriormente ao livro, tinha como ponto de partida desmistificar a ideia, presente em parte dos economistas desenvolvimentistas, segundo a qual até os anos 1980 tudo teria corrido bem: cresceríamos e nos desenvolveríamos, sendo até possível uma endogeneização do capital industrial, a despeito da desigualdade social. Também se afirmava que seria possível “negociar” os termos da dependência com o imperialismo, instrumentalizando o investimento direto estrangeiro por meio do Estado planejador de Vargas, JK e Geisel, por exemplo. Assim, a desnacionalização e as privatizações que marcaram os anos 1990 — e que teriam determinado a desindustrialização da economia brasileira — seriam, nessa leitura, o verdadeiro ponto de partida da conquista. Minha tese, na contracorrente tanto desses apologistas do desenvolvimentismo quanto dos entusiastas neoliberais da abertura financeira e comercial, procurou mostrar que essa conquista ocorreu justamente no auge da industrialização brasileira, desde os anos 1950. Trata-se, portanto, de um processo: uma verdadeira arte de dominação imperialista que se desenvolveu no momento em que parecia que o futuro havia chegado ao Brasil, quando, na verdade, se configurava sua tragédia desenvolvimentista. Partindo desse pressuposto, que recoloca a questão da dependência externa e do subdesenvolvimento, defendo que, à medida que o processo de internacionalização avança em diferentes estágios, o país se subordina socioeconomicamente ao imperialismo, mesmo tornando-se a economia mais industrializada da América Latina. O resultado é uma economia nacional que, apesar de possuir uma estrutura industrial relativamente complexa, acaba sucumbindo gradualmente à vulnerabilidade e à instabilidade estrutural provocadas pela valorização do capital internacional. Os anos 1990 são, desse modo, o ponto de chegada de um longo processo de conquista imperialista. Para demonstrar isso, realizei uma pesquisa empírica com dados sobre a origem, o destino e os impactos dos investimentos diretos na economia brasileira, além de analisar o contexto internacional e um vasto marco institucional que revela como o Estado brasileiro foi sendo progressivamente instrumentalizado pelo capital internacional no auge do próprio desenvolvimentismo.

LA: você relacionou seu período (1951-1992) com a atualidade, mas ele também não teria lastro histórico desde a colonização da América Portuguesa – particularmente na questão da dependência financeira?
FAC: Sim, é verdade. A dependência financeira brasileira é um traço estrutural que acompanha toda a sua história, desde a colonização. O território foi organizado como uma colônia de exploração voltada ao mercado externo, com a produção de pau-brasil, açúcar e metais preciosos articulada ao comércio internacional e frequentemente financiada por capitais e tecnologias estrangeiras — particularmente holandesas no complexo açucareiro. Isso é o “sentido da colonização” que Caio Prado Jr. denominou ainda em 1942. Portugal, desprovido de uma base financeira sólida, recorria a empréstimos e a conhecimentos técnicos externos para sustentar os engenhos e o comércio ultramarino, enquanto o trabalho escravizado africano se articulava ao tráfico internacional. Com a Independência em 1822, o Brasil já nasceu endividado, pois contraiu um empréstimo externo para indenizar Portugal, financiado por bancos ingleses, inaugurando um Estado sob a égide da dependência externa. Durante o século XIX, a economia permaneceu primário-exportadora, fornecendo matérias-primas e alimentos à industrialização inglesa, e o café, principal motor econômico, atraiu investimentos estrangeiros para ferrovias, portos, bancos e serviços urbanos. As políticas de valorização do café, como o Convênio de Taubaté de 1906, também dependiam fortemente de crédito externo, aprofundando o endividamento. No início do século XX, a indústria nascente nos setores têxtil, alimentício e de bebidas surgiu sob domínio do capital cafeeiro, mas sem romper com o capital internacional e sua ação imperialista. Nos anos 1920, setores pesados como siderurgia e cimento também passaram a receber influxos de capital internacional. A crise mundial de 1929 e a Revolução de 1930 abriram espaço para maior protagonismo estatal e avanço industrial interno, de modo que, até os anos 1970, o Brasil possuía a estrutura industrial mais avançada da América Latina. Contudo, o desenvolvimentismo não significou emancipação nacional: ao contrário, intensificou a dependência externa, na medida em que o financiamento internacional continuava sendo condição para o crescimento. Assim, desde a colônia até a industrialização, a trajetória brasileira revela que a dependência financeira não foi um acidente histórico, mas um elemento constitutivo da formação econômica do país.

LA: Em seu livro você também desmistifica a chamada “burguesia nacional”, que seria supostamente anti-imperialista, ao trazer a categoria de complexo multinacional e seu pressuposto imperialista. Poderia discorrer sobre isso um pouco?
FAC: O complexo multinacional no Brasil é apresentado como resultado histórico da dependência externa e do subdesenvolvimento, sustentado por uma burguesia de caráter mercantil, subordinada e antissocial. A partir de 1956, com a industrialização pesada, consolida-se uma forma específica de dominação do capital internacional, articulada ao que Florestan Fernandes chamou de “imperialismo total”. Esse momento envolve a associação de interesses entre o capital estrangeiro e a burguesia brasileira, voltada a garantir a expansão do capitalismo no país. Tal dominação atua de fora para dentro: busca extrair mais-valia, difundir uma promessa civilizatória oposta ao socialismo e assegurar estabilidade política — que pode chegar ao plano militar. Ao mesmo tempo, a associação dependente estrutura os principais negócios ligados à industrialização pesada, ampliando a base material do mercado interno. Dessa forma, consolidam-se interesses comuns entre o capital internacional e a burguesia interna, que passam a controlar o Estado brasileiro para a estratégia contrarrevolucionária do imperialismo nessa fase, colocando-o a serviço desse arco multinacional de poder econômico e político. Em resumo, entre 1956 e 1964 ocorre uma mudança qualitativa no papel da burguesia brasileira no imperialismo: ao se beneficiar da internacionalização produtiva, ela também se torna um elemento vital para o controle da superestrutura, garantindo a fluidez da acumulação e o funcionamento dos negócios. Trata-se de uma burguesia que é, ao mesmo tempo, fraca para fora — pois não se constitui como uma burguesia nacional capaz de defender a autonomia econômica — e forte para dentro, visto que, ao controlar o Estado, impõe sua força política para explorar o povo e garantir a geração e a extração do excedente que alimenta todo o complexo multinacional. Há, portanto, um divórcio em relação a qualquer veleidade nacional e democrática, em que o capitalismo dependente brasileiro e seu modelo autocrático burguês se consolidam a partir de 1964. Todavia, se entre 1951 e 1980 o complexo multinacional tinha na industrialização seu nexo organizador da economia brasileira, atualmente isso deixou de ocorrer. Existem até indústrias, mas não um processo de encadeamento produtivo que possa ser chamado propriamente de industrialização. A economia torna-se cada vez mais reflexa, e o velho sentido da colonização descrito por Caio Prado Jr. se impõe novamente — reproduzindo, sob novas bases, a superexploração da força de trabalho e a depredação ambiental. Nesse contexto, torna-se impossível idealizar uma “burguesia nacional” capaz de conduzir um novo desenvolvimentismo e instaurar um Estado de bem-estar social tropical. O Brasil aparece, assim, como uma espécie de vanguarda capitalista da barbárie neste momento de crise estrutural, com uma burguesia cada vez mais próxima do tipo compradora.

LA: Nessa última resposta é possível entender que a humanidade, inclusive no Brasil, não tem saída para sua existência emancipada dentro do capitalismo?
FAC: Exato. O momento atual revela um processo de desconstrução que já se estende por quase meio século no Brasil e que não pode ser explicado apenas pelo neoliberalismo ou por suas reformas econômicas – dentro do parâmetro reducionista do debate entre economistas “ortodoxos” e “heterodoxos”. Trata-se, na realidade, da combinação entre os limites estruturais da formação histórica brasileira e o novo padrão mundial de acumulação que emergiu com a crise estrutural do capitalismo nos anos 1970. Sem resolver seus problemas fundamentais de formação nacional, a economia brasileira tornou-se mais frágil, vulnerável e dependente das instabilidades do sistema. No século XXI, essa dependência externa atinge um patamar inédito, enquanto o subdesenvolvimento — marcado pela herança escravocrata — se expressa na forte concentração de renda e riqueza nas mãos da classe dominante. Assim, o que parece atraso histórico revela, na verdade, uma forma avançada de barbárie no capitalismo contemporâneo, visível inclusive na difusão de formas de sociabilidade milicianas, que apenas explicitam um problema histórico jamais resolvido. Nesse contexto, fenômenos como desindustrialização, desnacionalização e reprimarização não são meramente conjunturais, mas expressam a persistência de uma velha estrutura mercantil-financeira que se recompõe e se reproduz ao longo da história brasileira. De novo: essa barbárie brasileira não significa simplesmente atraso, mas a expressão avançada de um capitalismo que já não tem mais nada a oferecer à humanidade senão destruição, colapso ambiental e guerra. O comunismo, nesse sentido, deixa de ser apenas um projeto de transformação econômica e política e passa a se colocar como uma necessidade histórica para a própria sobrevivência do gênero humano.

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